Pesquisa global revela que 31% dos jovens homens defendem submissão da esposa

Imagem simbólica sobre desigualdade de gênero citada em pesquisa com jovens homens
Levantamento global aponta que 31% dos jovens homens acreditam que a esposa deve obedecer ao marido. (Foto: Freepik)

Apesar da percepção de que as novas gerações defendem mais a igualdade de gênero, uma pesquisa global revelou que ideias tradicionais sobre o papel da mulher ainda persistem entre os jovens.

O levantamento, realizado pela Ipsos em parceria com o Instituto Global de Liderança Feminina do King’s College London, ouviu cerca de 23 mil pessoas em 29 países e mostrou que 31% dos homens da Geração Z — nascidos entre 1997 e 2012 — acreditam que a esposa deve sempre obedecer ao marido.

O índice é mais que o dobro do registrado entre os Baby Boomers, geração nascida entre 1946 e 1964, onde apenas 13% dos homens concordam com essa afirmação.

Segundo especialistas ouvidos pelo g1, o resultado chama atenção, mas não chega a ser totalmente inesperado. Pesquisas recentes já indicavam o crescimento de visões mais conservadoras sobre as relações entre homens e mulheres, especialmente entre parte da população jovem.

Resultados no Brasil

Os dados mostram ainda que o Brasil aparece entre os países com maior concordância com algumas visões tradicionais de gênero.

Um dos resultados aponta que 70% dos brasileiros acreditam que está sendo exigido demais dos homens para apoiar a igualdade de gênero, número bem acima da média global, que é de 46%.

Outro ponto analisado foi a percepção sobre masculinidade e cuidados familiares. No Brasil:

  • 16% dos homens acreditam que homens que cuidam dos filhos são menos masculinos
  • Outros 16% afirmam não concordar nem discordar da afirmação

No ranking global, o país aparece na 8ª posição entre 29 nações.

Sexualidade e papéis tradicionais

A pesquisa também investigou percepções sobre comportamento feminino.

No Brasil:

  • 17% concordam totalmente que uma “mulher de verdade” não deve iniciar o sexo
  • 20% dizem não concordar nem discordar da afirmação

Entre os países analisados, o Brasil ocupa a 7ª posição com maior concordância com essa ideia.

Já em relação à afirmação de que a esposa deve obedecer ao marido, os números brasileiros indicam:

  • 21% concordam
  • 20% não concordam nem discordam

O país aparece na 9ª posição entre 29 países.

Por que essas ideias ainda persistem?

Para especialistas, a permanência dessas visões está ligada à força de normas culturais transmitidas ao longo das gerações.

Embora muitas pessoas defendam, no plano individual, relações mais igualitárias, as expectativas sociais ainda associam tarefas domésticas e cuidados familiares às mulheres, enquanto o papel de provedor continua sendo mais ligado aos homens.

A presidente da organização Think Olga, Maíra Liguori, explica que discursos machistas continuam sendo reproduzidos em diferentes espaços da sociedade.

“Embora tenha havido um movimento forte de mulheres reivindicando autonomia e independência, ainda persistem discursos machistas e conservadores. Esses valores continuam sendo transmitidos pela religião, pela mídia e pela própria criação familiar”, afirma.

Influência das redes sociais

Especialistas também apontam que comunidades online e redes sociais têm contribuído para a disseminação de conteúdos misóginos.

Um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), realizado em parceria com o Ministério das Mulheres, identificou 137 canais que propagam discurso de ódio contra mulheres na internet entre 2018 e 2024.

Em alguns casos, os criadores desses conteúdos chegam a vender livros e cursos defendendo ideias como a necessidade de controlar ou humilhar mulheres independentes.

Para Maíra Liguori, esse tipo de narrativa acaba reforçando a percepção de que a busca feminina por autonomia seria uma ameaça.

“Uma mulher que busca sua liberdade e sua independência não está necessariamente desafiando o masculino, mas muitos homens acabam se sentindo atacados”, afirma.

Resistência aos avanços da igualdade

O levantamento também mostrou que parte significativa da população acredita que os avanços na igualdade de gênero já foram suficientes.

Cerca de 52% dos entrevistados afirmam que os esforços para garantir direitos iguais às mulheres já foram longe o suficiente em seus países.

Além disso:

  • 46% dizem que está sendo exigido demais dos homens para apoiar a igualdade
  • 44% acreditam que a promoção da igualdade feminina já estaria discriminando os homens

Para o psicanalista Christian Dunker, professor da Universidade de São Paulo (USP), transformações sociais profundas costumam gerar reações distintas.

“Parte da sociedade se adapta mais rapidamente às mudanças, enquanto outra permanece vinculada a valores tradicionais”, explica.

Mudanças continuam acontecendo

Mesmo com resistências, especialistas avaliam que as transformações nas relações de gênero tendem a continuar.

Segundo a socióloga Felicia Picanço, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), houve avanços importantes na redução da crença de que mulheres seriam inferiores aos homens.

Por outro lado, ainda existe resistência quando o tema envolve a divisão de responsabilidades dentro da família.

“Ainda há resistência a mudanças maiores na distribuição das tarefas domésticas e dos cuidados. O enfrentamento das desigualdades precisa começar dentro de casa”, afirma.

*Com informações do G1

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