Quando o teatro sai dos palcos tradicionais e passa a ocupar centros de reabilitação, comunidades indígenas e associações de pessoas com deficiência, ele se transforma em ferramenta de escuta e ação social. Esse foi o caminho percorrido pelo projeto Oficinas Formativas em Teatro do Oprimido: possíveis experimentações para Narrativas (Auto)biográficas no Ensino de Ciências e a Vida, realizado pelo Coletivo Allegriah, que encerrou seu ciclo alcançando 196 participantes em cinco municípios do Amazonas, quase 20% acima da meta inicial.
Viabilizada por recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), a iniciativa percorreu Manaus, Iranduba, Rio Preto da Eva, Novo Airão e Coari, levando oficinas gratuitas a territórios periféricos e espaços de cuidado coletivo. Mais do que formação artística, o projeto apostou na metodologia criada por Augusto Boal, reconhecida pela UNESCO, para estimular reflexão crítica, participação social e ensaios de mudança na vida real.
Cultura onde antes havia silêncio
Para a coordenadora geral do projeto, a escritora, atriz e arte-educadora Jackeline Monteiro, a experiência foi marcada pelo encontro com realidades diversas e pelo enfrentamento das desigualdades no acesso à cultura. Segundo ela, muitas pessoas tiveram contato com o teatro pela primeira vez durante as oficinas.
“Encontramos histórias distintas, corpos diversos e tempos muito desiguais de acesso à cultura. Dói reconhecer que o teatro ainda não chega a tantos municípios, mas é potente poder ser ponte e abrir frestas onde antes havia silêncio”, afirmou.
A presença de migrantes e refugiados nas atividades realizadas em Manaus e na Região Metropolitana também ampliou o alcance simbólico do projeto. “Essas presenças fortaleceram o sentimento de pertencimento, resistência e cuidado coletivo”, completou a coordenadora.
Do centro de reabilitação à escola indígena
O balanço das atividades mostra a diversidade de públicos atendidos. Em Manaus, 36 pessoas participaram das oficinas realizadas no Centro Espírita Casa do Caminho, na zona Norte da capital, reunindo crianças e idosos em um espaço de afeto e expressão.
Em Novo Airão, o projeto chegou à Fundação Almerinda Malaquias e à Escola Indígena Juruti, na comunidade Maku Ita, onde 33 jovens e adultos utilizaram o corpo, o gesto e o silêncio como formas de comunicação. Já em Rio Preto da Eva e Iranduba, em parceria com a Escola de Egressos da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), as oficinas ocorreram no Centro de Reabilitação Ismael Abdel Aziz e no Lar Terapêutico Ágape, envolvendo 73 internos em processo de reconstrução de vida.
Em Coari, a iniciativa alcançou 55 pessoas na Associação Pestalozzi, em uma ação integrada com música e teatro voltada à inclusão de pessoas com e sem deficiência.
Economia criativa e legado
Além do impacto social, o projeto também movimentou a economia criativa local ao contratar produtores culturais e monitores aprendizes em cada município visitado. A proposta, segundo a coordenação, foi fortalecer redes locais e deixar ferramentas de produção cultural nos próprios territórios.
“O teatro não pode ser uma ação passageira. Quando capacitamos jovens e produtores locais, garantimos que as histórias continuem sendo contadas depois que o projeto termina”, destacou Jackeline Monteiro.
Com o encerramento do ciclo presencial, a iniciativa segue ativa no ambiente digital. Uma série de lives e podcasts formativos, disponíveis no YouTube e no Spotify, reúne pesquisadores e especialistas para discutir práticas emancipatórias e a relação entre arte, educação e política pública.
“O que fica é a certeza de que onde o teatro chega, algo se move. E quando ele chega pelo viés da inclusão, não é apenas arte: é direito, cuidado e vida em cena”, concluiu a coordenadora.
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